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Passavam das 20h15min quando cheguei ao hospital. Logo na recepção encontrei Beto novamente, que me arrastou até o banheiro para conversar:
- Caio, não conta nada para meu pai que estive aqui. Estava esperando ele melhorar, parece que teve alta dos médicos e amanhã vai para casa.
- Beto, você já me pediu isso pela manhã, não se lembra? – Disse irritado.
- Desculpa, mas achei que não fosse guardar nosso segredo. – Falou Beto lavando as mãos.
- Mais alguma coisa Beto?
- Não, era só isso. Pode ir.
Sai rapidamente do banheiro em busca do quarto de senhor Wilson. No corredor encontrei Marisol desconsolada sentada em um banco. Resolvi passar direto e ir até o quarto, ali encontrei uma das enfermeiras aplicando uma injeção no Wilson e explicou que tinha acabado de adormecer. Fiquei um tempo observando-o e pensando na vida. Ao sair, reparei Beto ao lado de Marisol que ao notar minha presença correu para o elevador. Segui, e consegui entrar no mesmo elevador:
- Beto, me diga uma coisa. Você tem um caso com a futura esposa do seu pai?
- Claro que não Caio, acho que pirou.
- Tenho minhas dúvidas se você não é o pai do filho que ela está esperando.
- O que? Essa vagabunda está esperando um filho meu? – Gritou Beto.
- Eu sabia. Acabou de assumir o seu caso com Marisol. – Sorri.
- Caio, não encha. Tenho sim um relacionamento com ela, quem ia me sustentar e roubar dinheiro do meu pai para minha sobrevivência? – Beto pensou e continuou - Mas não imaginava que Marisol estava grávida de mim, segundo ela disse que estava engordando por causa do anticoncepcional.
- Pois é Beto, mas um filho seu vindo ao mundo por falta de sua responsabilidade.
- Se meu pai descobrir isso me mata. Promete não contar isso para ninguém? – Falou Beto envergonhado e chorando.
- Ok Beto, você está me devendo mais essa. Assim que terminar de resolver com Marisol, suma daqui senão te denuncio e conto tudo para todos.
O elevador parou no térreo, tentei sair. Beto me puxou de volta. Fazendo com que a porta fechasse:
- Caio faço tudo que você quiser, inclusive trepar com você agora nesse elevador. – Disse Beto apertando meu braço.
- Me solta, está machucando. – Tentei fugir.
Beto me apertava cada vez mais, tentando me beijar a força. Arranhou meu rosto e alguns botões da minha camisa soltaram. Vi que a única saída era dar um chute no saco de Beto. Só assim seria solto por esse monstro. Chutei bem forte e consegui escapar, a porta do elevador abriu e o médico que aguardava perguntou:
- Aconteceu alguma coisa aqui?
- Comigo não, agora com ele vai ter que ser internado com fraturas nas bolas. – Disse arrumando minha camisa.
Por minha sorte consegui descer justamente no andar do estacionamento. Entrei no carro e não conseguia tirar da minha cabeça essa história suja de Beto. Cheguei tarde no apartamento e todos estavam dormindo.
Cheguei na agência, nem consegui almoçar. No meio de um projeto importante, minha secretária bateu na porta dizendo que tinham duas pessoas querendo falar comigo. Achei estranho, pedi para entrar. Quando vi era Kiko e Bruno. Fiquei contente em vê-los e ao mesmo tempo preocupado:
- Que surpresa meninos. – Sorri.
- Viemos aqui falar algo muito importante com você. Precisamos da sua opinião – Falou Bruno puxando a cadeira.
Kiko veio do meu lado, beijou minha boca e falou:
- Ah Bruno eu vim aqui, para matar saudades do meu namorado lindo.
- Olha vou querer isso todos os dias. – Falei todo empolgado.
Depois de se acomodarem, tomarem suco e comerem bolachas. Bruno resolveu contar o que estava acontecendo:
- Caio, não vamos tomar muito seu tempo. Viemos aqui dizer que eu e o Kiko estamos fazendo uma sociedade. Queremos abrir um restaurante com comidas típicas e música ao vivo naquela casa antiga que tem na avenida principal.
- Nossa que maravilha. – Fiquei mais ansioso para saber o resto e atento nos dois.
- A decoração será feita por nós, onde colocaremos desenhos em forma de quadrinhos. Vai ser um ambiente super descolado. – Explicou Kiko segurando minha mão.
- Amei a idéia. Pode contar comigo meninos, ajudarei vocês com certeza. – Falei acreditando no projeto dos meninos.
- Ok. Então vamos na imobiliária e depois passaremos na loja de materiais de construção para pesquisar os preços. Vamos aproveitar hoje que fomos dispensados mais cedo. – Falou Bruno levantando e dirigindo-se para a porta.
Kiko balançou a cabeça simbolizando um sim. Não resisti cai nos braços dele e nos beijamos. Fomos interrompidos pelo Bruno que bateu na porta. Estava lotado de serviço e antes de voltar para o apartamento passaria no hospital, faria uma visita para senhor Wilson.
Lucio estava um pouco melhor e super empolgado. A apresentação seria no dia seguinte. Foi para o galpão finalizar e dar os últimos retoques, antes passou na banca de jornal e comprou três revistas que falavam do seu espetáculo e da comunidade carente. Marquinhos estava recuperado, pronto para atuar, todos receberam o garoto com muitas palmas. Wil foi ajudar Lucio, costurou várias roupas e pintou os cenários.
Erick acordou meio dia, não almoçou e foi direto para a academia. Na porta encontrou Henrique e o musculoso da praia rindo. Resolveu não interromper. Algumas horas depois de malhar, Erick conversou com Henrique na recepção:
- Nossa Henrique quem era aquele?
- É o novo professor de musculação. Os pais dele são vizinhos da casa de praia do meu tio. Conheci lá no acampamento. – Falou Henrique.
- Eu lembro, vi te chamando aquele dia. Não vai me dizer que vocês estão tendo um caso?
- Claro que não. Somos amigos, e outra com certeza ele é hetero. E sou fiel ao David. – Suspirou Henrique - Coitado, ultimamente tenho trabalhado tanto que nem consigo dar atenção para ele.
Erick olhou para os dois lados, verificou se tinha alguém por perto e disse desconfiado:
- Henrique, posso te contar uma coisa?
- Com certeza Erick.
- Então, estou fazendo show numa boate. Ontem foi meu primeiro dia, arrasei. Os homens gritavam meu nome, me desejavam, passavam a mão no meu corpo, me deram dinheiro.
- Nossa que maravilha. Quero lá te ver, tem hoje? – Empolgou Henrique.
- Hoje não, somente domingo as 22h. E minha personagem é a Sâmara Morgan.
- Olha a misteriosa Sâmara Morgan é o Erick. Estarei lá domingo, pode contar comigo. Vou ver se esse meu amigão musculoso vai comigo.
- E o David? – Perguntou Erick preocupado.
- Ah invento uma desculpa, digo que vou na casa de uns amigos. Não perco por nada sua apresentação.
Erick voltou super feliz para a aula de ginástica e tinha que manter em segredo pelo menos por enquanto essa identidade de Sâmara Morgan.

Acordei com Erick abrindo a porta, entrando na ponta do pé. Fingi estar dormindo. Notei uma caixa de papelão nos braços dele. Olhei no relógio e estava atrasado, corri para o banheiro, me arrumei, peguei uma xícara de café e fui trabalhar. No elevador meu celular tocou, era Marisol:
- Alô Caio? É a Marisol, venha correndo para o hospital, pois o...
Raios, a ligação ficou sem sinal justo na hora em que seria revelado o que tinha acontecido. Preocupado, mudei meu trajeto para o hospital.
Ao chegar vi Marisol na recepção chorando:
- Que foi Marisol? – Perguntei aflito.
- Então... Wilson foi vítima da bala perdida naquele trânsito da greve de ontem.
- Não acredito, mas está tudo bem?
- Ele está fazendo uma cirurgia para tirar a bala, que ficou parada no braço. – Falou Marisol nervosa.
- Meu Deus. O que nos resta é rezar. – Disse pegando a mão de Marisol que tremia.
Puxei a cadeira, acomodei Marisol e pedi um copo com água na lanchonete para ela. Avisei que chegaria mais tarde na agência. Kiko preocupado me ligou desesperado, corri até o banheiro para atender a ligação. Ao entrar dei de frente com um cara loiro, alto, bonito que estava se penteando no espelho. Falei com Kiko rapidinho no celular, disse que não estava na empresa ainda, devido ao acidente com Senhor Wilson. De repente reparei que aquele rosto do loiro não era estranho, despedi de Kiko, explicando que depois ligaria. Olhei bem para aquele rapaz, foi quando disse:
- Oi Caio, lembra de mim?
- Beto, não acredito. Você por aqui? – Me assustei.
- Pois é, nunca estive longe de vocês. Mudei o visual, a cor do meu cabelo e o meu jeito para ninguém perceber. – Falou Beto colocando óculos escuros.
- Achei que você estava em outro País.
- Fui, mas voltei logo Caio. O dinheiro que meu pai me deu foi pouco. Tive que voltar, para pegar mais grana com o velho do meu pai e aconteceu esse trágico acidente. Mas enfim você ainda está com raiva de mim? – Falou Beto arrependido.
- Raiva não, mas decepcionado Beto. Não esperava aquilo tudo de você, seqüestro, a facada que levei e outras coisas mais.
- Cara me perdoa, por favor. Não me denuncia e muito menos fala que estive aqui no hospital.
- Ok, vou indo Beto. – Respondi indo para a porta.
- Calma, espera mais um pouco. – Beto me puxou pelo braço.- E meu filho Lukinha?
Voltei e observei os olhos de Beto cheio de lágrimas:
- Está bem, Tassia cuida muito bem do menino.
Sai do banheiro e deixei Beto ali chorando, sem entender nada caminhei até a recepção saber notícias da cirurgia do senhor Wilson. A enfermeira informou que tinha sido um sucesso e a bala foi removida do braço. Horário de visitas seria somente a noite, pois o paciente estava descansando. Fui embora para agência resolver minhas pendências, procurei Marisol e não a encontrei.
Peguei o presente no chão, coloquei em cima da cama. Fiz um sinal que Kiko podia abrir:
- Que lindo Caio, sempre quis ter um cachorro.
- Esse será seu companheiro quando não estiver por perto. Vai cuidar de você, quando estiver aqui sozinho.
- Cara te amo, sabia?
- Seu olhar diz isso para mim a todo instante que te vejo.
- Tenho medo de te perder um dia.
Resolvi não falar nada, dei vários beijos nele e deitamos na cama. Ficamos ali um bom tempo olhando para o teto que tinham estrelas que brilhavam no escuro. E o cachorro já estava marcando território no quarto, fez xixi no tapete e deitou em cima do skate do Kiko:
- Caio, como será o nome do cachorrinho?
- Hum vamos ver... Tem que ser um bem legal.
- Que tal Peter em homenagem ao homem aranha?
- Perfeito. Feliz nosso dia 12! – Disse beijando aquela boca maravilhosa.
As horas iam passando, e o mundo parecia ter parado para nós. Quando percebemos estávamos somente de cuecas, nos esfregando e prontos para a transa que nunca rolava. De repente na porta:
- Toc Toc
- Kiiiiikoooo, a mamãe chegou e a janta está pronta. Pediu para vocês descerem.
Olhei para Kiko e demos risadas. Isso já estava virando piada. Mas ao menos dessa vez chegamos nas preliminares, nos masturbamos e faltou pouco pra rolar o sexo.
Kiko me apresentou aos pais dele, que me trataram muito bem. Jantamos todos, falamos besteiras e não queriam que eu fosse embora. Heitor irmão do Kiko, me adorou e pediu para voltar sempre. Confesso, que no começo fiquei meio sem jeito com a família de Kiko, depois fui me soltando. São pessoas liberais, que acreditam no amor e na felicidade entre dois homens.
Fui embora tarde. Cheguei no apartamento Lucio e Bruno estavam acordados desesperados atrás de Erick que saiu e não deu notícias para onde ia. Tranqüilizei os dois, pedi que fossem dormir. Logo Erick apareceria. Mas não apareceu, dormi no sofá.
Eu no meu serviço esperava acabar todo o transtorno da greve, para ir embora. Resolvi ir ao shopping do lado da agência passar o tempo e comprar o presente de Kiko. Enfim, não podia deixar essa data passar em branco. Numa loja de animais vi um cachorro lindo pelo vidro, que não parava de pular e latir. Não pensei duas vezes, comprei. Voltando para o estacionamento onde estava meu carro, liguei para o Kiko e disse que tinha uma surpresa e o encontrava em frente a sua casa.
Depois de algumas horas cheguei em frente a casa de Kiko, que me convidou para entrar. O único que estava era seu irmão caçula de 14 anos (Heitor), e já sabia do nosso relacionamento. A primeira impressão que tive do meu “cunhadinho” foi maravilhosa. Enquanto Kiko foi arrumar o quarto, fiquei na sala jogando game com o irmão dele. Nossa estava tão contente, que não sabia onde esconder minha felicidade. Quando estava quase ganhando um jogo de luta, Kiko me chamou na beira da escada convidando para subir:
- Caio, vem aqui no meu quarto para gente conversar.
- Já vou. – Disse pegando a casinha do cachorro, que estava embrulhada em um papel super brilhante.
Kiko pegou minha mão, caminhamos para o seu quarto. Quando entrei, me deparei com um ambiente aconchegante, cheios de pôster do homem aranha (o Peter Paker) e brinquei:
- Estou com ciúmes, desse homem aranha.
- Para com isso. Olha ali no meio de tanto Peter Paker, tem meu super-herói favorito. – Apontou para o porta retrato.
Aproximei, e vi uma foto minha no porta retrato ao lado da cama dele e na parede um quadro com várias imagens nossas.
- Que lindo tudo isso Kiko. – Fiquei emocionado.
- Está vendo, meu quarto é essa bagunça e o melhor de tudo que não te perco nele. Tenho você por todos os lados. – Disse Kiko me beijando.
- Hum, desse jeito você me deixa mais louco por você. – Abracei Kiko bem forte. – Demorou, mas vim conhecer sua casa né?
- Com certeza, a porta estará aberta sempre pra ti. Mas estou curioso para saber o que você tem nesse embrulho tão bonito? – Falou Kiko me puxando para sentar na cama.
Wil foi ao supermercado junto com Erick fazer compra. Foram a pé no mercado, devido a greve estava um trânsito infernal. Chegando lá, encontraram Tassia e Lukinha, conversaram e seguiram aos corredores pegando os produtos.
Erick escapou até o corredor de hidratantes e deu de frente com Jorge:
- Oi Jorge, fazendo compras? – Disse Erick colocando no carrinho um creme hidratante.
- Não... não... – Assustou Jorge e escondeu umas revistas masculinas nas costas.
- O que é isso ai nas suas costas?
- São algumas revistas. Erick vou te confessar uma coisa. – Suspirou Jorge.
- O que Jorge?
- Sofro de ejaculação precoce. Isso foi depois de ter sofrido alguns conflitos, falta de dinheiro, estress, não consigo me controlar. Sou louco por sexo, mas só de me tocarem gozo.
- Então por isso que saiu correndo aquele dia de mim?
- Sim. O médico pediu que me masturbasse bastante e estou passando em um psicólogo. Na minha masturbação tento controlar o momento certo de gozar. – Disse Jorge com vergonha.
- É grave mesmo. Então as revistas são para te dar uma forcinha na hora de descascar a banana? – Brincou Erick.
- Com certeza. E ainda voltarei a ser o garanhão de todos os tempos. Louco por sexo e uma boa transa.
Wil chamou Erick para irem embora, pois tinha muita coisa para fazer no apartamento guardar as compras e ajudar Lucio com os preparativos da peça.
David estava atrás de Henrique que não o procurava faziam dois dias. Sem entender, foi até a academia verificar que estava acontecendo. Na recepção, Henrique atendia um cliente. David impaciente aguardou o momento e falou:
- Henrique, o que está acontecendo?
- Nada David, estou cheio de problemas. Mas você sabe muito bem que gosto de você.
- E precisava sumir desse jeito? Não me liga, não me atende.
- Ih, não enche David. Estou trabalhando, e na hora que sair daqui te procuro.
David resolveu ir embora, sem dizer mais nada. A greve dos metroviários continuava na cidade. David andando pela rua, percebeu que tinha um garoto de uns 18 anos seguindo-o. Quando viu que não dava mais para fugir, parou e perguntou:
- Olá, quem é você?
- Oi... – Disse o garoto encabulado. – Sou o Leo e você?
- David, mas porque está me seguindo desde a academia?
- Nem percebi, sou tão sozinho. Estava precisando falar com alguém.
- Você mora aonde Leo? – Perguntou David.
- Na rua.
- Na rua? Qual rua? – Espantou David.
- Em todas. Sou um garoto de rua.
David ficou paralisado e sem reação diante ao garoto que não parava de encarar e olhar no fundo dos seus olhos. Percebeu que aqueles olhares eram estranhos e no mínimo tinha se encantado por ele.
- Estou sem palavras. – Falou David sem saber o que fazer.
- Todos ficam, quando me conhecem. – Sorriu o garoto (Leo) - Sempre te observei. Todos os dias venho aqui na igreja nessa rua, para tomar café da manhã e vejo você passando.
- Hum... Você tem família?
- Tenho, mas fugi de casa. Meus pais são muito preconceituosos. Todos os dias, vou na casa da minha avó tomar banho e trocar de roupa. Depois volto para o meu mundo das avenidas, das ruas.
- Que coisa. – Falou David observando o olhar triste do garoto.
- Para você ver, não fumo, não bebo e nunca usei nenhum tipo de drogas. Só tenho um defeito, sou gay. – Falou o garoto Leo, com os olhos cheios de lágrimas.
- Para com isso, ser gay não é nenhuma doença. É questão de escolha, opção... E saiba que a partir de hoje você arrumou um amigo.
- Que legal, fico feliz por ter encontrado você David.
Do nada, na avenida aconteceu uma correria. Disseram que tinha um louco atirando no meio do trânsito. Alguém foi atingido por uma bala perdida. David perdeu o garoto que saiu correndo no meio da confusão e foi embora sem se despedir, o dia estava terrível parecia o fim do mundo.
Acordei com o interfone berrando na cozinha. Fui atender era o porteiro:
- Bom dia, senhor Caio? Entrega para o seu apartamento.
- Por favor, manda subir.
Ao abrir a porta, era o entregador de flores. Recebi, achei um cartão, fui logo lendo e estava escrito “Feliz seja o nosso eterno dia 12”. Kiko que tinha enviado, estávamos completando mais um mês de namoro. Nisso Wil apareceu na cozinha:
- Bom dia. Que flores lindas, para quem é Caio?
- São minhas Wil, Kiko enviou para comemorar o nosso aniversário de mais um mês de namoro.
- Nosso o amor é lindo, e você ama demais ele né?
- Com certeza Wil, ele é tudo para mim. – Disse com os olhos cheio de lágrimas.
- Ai queria eu ter um relacionamento tão puro e sincero que nem o seu.
- Um dia você vai encontrar alguém legal Wil, não perca as esperanças. – Disse fazendo um carinho na mão dele.
- Espero Caio. Desculpa perguntar, o que você comprou para o Kiko?
- O pior que não tive tempo de comprar nada para ele. Vou passar no shopping mais tarde e ver se encontro algum presente. Mas porque levantou tão cedo?
- Vim aqui te avisar que hoje está tendo greve dos metroviários na cidade. Imagina a muvuca que está São Paulo. – Disse Wil ligando a TV.
Assisti um pouco da TV e fui enfrentar o caos da cidade. Fiquei praticamente parado quase duas horas na avenida que tenho acesso para chegar a minha agência. Nunca pensei que uma simples greve afetasse milhões de pessoas. Praticamente todos chegaram atrasados nas empresas. Tentei ligar várias vezes no celular de Kiko, mas não conseguia. Passei mensagens de texto no celular dele.
No hospital a mãe de Marquinhos foi avisada pelos enfermeiros. Chegou apavorada e com o olho roxo. Nada grave tinha acontecido. Lucio viu a mãe do garoto se aproximando e disse:
- Acabou de dormir. – Falou Lucio apontando para Marquinhos.
- Que bom, assim pelo menos esquece do pai.
- Nossa que é isso no seu olho? – Espantou Lucio.
- Oh louco do meu marido, quando descobriu que Marquinhos estava nos ensaios me agrediu e disse que mataria vocês dois. – Falou a pobre senhora chorando.
- Calma, o pior já passou. Agora depende de nós para colocar esse covarde atrás das grades.
- Como assim Lucio?
- Ele agrediu a senhora e seu filho. Queria me matar por ser gay, posso fazer uma denúncia por preconceito sabia?
- É mesmo, não tinha pensado nisso. – Horrorizou a senhora.
- Homofobia é crime. Mas só irei denunciar, se a senhora permitir.
Por um instante a senhora olhou para seu filho deitado na cama ao lado, suspirou e disse:
- Pode sim, já tentei fazer isso... Mas nunca conseguia, não tinha coragem. Sempre apanhei dele, mas prometi que o dia que ele colocasse a mão no meu filho ia direto para delegacia. E aceito fazer uma queixa (denúncia) também.
- Ok, arrumarei um advogado para ajudar nesse caso. – Falou Lucio levantando da cama e pegando o celular na mochila.
Lucio ligou para o advogado (Soares), explicou toda história. Soares desesperado foi direto para delegacia. Ao falar com o delegado, colocaram o “homofobico” atrás das grades, foi preso por preconceito e por ter agredido o filho menor de idade e a mulher.
Fiquei sabendo de toda essa história, quando Lucio chegou carregado aos braços de Bruno no apartamento. Wil fez a janta para todos nós. Bruno e Lucio comeram no quarto.
Erick estava meio estranho, e ficou horas e horas no banheiro se depilando. Só descobri pela quantidade de pelos que tinham no chão.
No apartamento Erick sozinho, abriu a caixa escondida no guarda roupa e colocou os vestidos e o sapato alto que havia comprado. Colocou uma música “drag music” e começou a fazer caras e bocas imitando a cantora. Após horas de ensaio, pegou um papel dentro da cômoda com um número de telefone e ligou:
- Alô, aqui é o Erick e pode contar comigo para o show, quando começo?
Do outro lado uma voz feminina rouca disse:
- Erick, que maravilha... Amanhã mesmo você começa. Sabia que você viria fazer parte do nosso show. Você já tem algum nome artístico?
- Não, e precisa disso? – Falou Erick assustado.
- Hahaha, claro meu garotinho, todas as nossas drags tem um nome. De dia são homens normais e a noite fazem show aqui na minha boate. – Explicou a mulher.
- Ok, até o dia da apresentação passo meu nome. Obrigado e até lá.
Erick desligou o telefone e foi para Internet pesquisar um nome. Depois de horas, achou um site de nomes e simpatizou com Sâmara. Faltava somente o sobrenome, que procuraria depois. Pois estava atrasado para ir a academia. No caminho da academia, no ponto de ônibus Erick viu Jorge saindo de uma clínica e ficou observando. Os dois acabaram pegando o mesmo ônibus:
- Jorge, o que faz aqui?
- Olá, mocinho. Como vai? – Disse Jorge surpreso.
- Pensei que você tivesse sumido depois daquele dia que o Lucio pegou a gente transando.
- Hahaha, nem me lembra desse dia. Aquela vassourada, acho que afetou minha memória e nem lembro mais seu nome.
- Erick. Já esqueceu é?
- Claro que não, sou péssimo para guardar nomes. – Disse Jorge passando a mão em Erick.
- O que você está fazendo, estamos dentro do ônibus.
- Está vazio e ninguém está olhando. – Sorriu Jorge.
Realmente esse horário não tinha ninguém. Erick colocou a mão por dentro da calça de Jorge e começou alisar seu órgão sexual. Mas durou pouco, pois Erick sentiu sua mão toda melada. Jorge gozou só de sentir a mão no seu pênis, com muita vergonha desceu do ônibus e saiu correndo. Erick ficou sem entender nada, ao chegar na academia correu para o banheiro lavar as mãos e descarregar sua tensão e tesão. Entrou numa das cabines do banheiro e se masturbou pensando naquela cena do ônibus.

Mais uma semana começando, praticamente a mais agitada. Lucio acordou cedo para tirar algumas fotos da revista (divulgação da peça). Bruno foi junto com um fotógrafo no galpão onde seriam tiradas as primeiras imagens. Os ensaios iniciaram cedo e Lucio atuava junto as crianças, que a cada vez mostravam o seu melhor, participando de todas cenas e se preparando para encantar no dia da apresentação.
Marquinhos, filho do pai homofobico voltou a ensaiar escondido, somente com autorização da mãe que acreditava no potencial do filho. Lucio somente deixou, após ter recebido um recado permitindo a sua atuação.
Já estava quase chegando o grande dia, menos de uma semana. Todos ensaiavam com muita dedicação. Nesse dia a menina que fazia Julieta faltou e Lucio teve que interpretar com Marquinhos:
- O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que lamentam, muito curto para os que festejam. Mas, para os que amam, o tempo é uma eternidade. – Disse Marquinhos todo empolgado o texto de William Shakespeare.
- Muito bem Marquinhos, excelente! Não se esqueça de pegar na mão de Julieta ao falar esse trecho.
O garoto empolgado pegou na mão do professor. E não sabia que seu pai estava na janela observando tudo, morrendo de raiva com aquela cena. Dessa vez não entrou, quis evitar conflitos. Saiu soltando fumaças pelo nariz, chegou em casa agrediu a mulher por estar escondendo isso e afirmou que mataria o filho mais o professor. O ódio por gays era tanto, que ficou horas planejando como se vingaria.
Enquanto isso o ensaio continuava e já estava praticamente no horário do almoço. Enfim, a hora das crianças irem para suas casas.
Marquinhos foi embora junto a um colega, quando do nada apareceu o pai dando um soco. Por sorte Lucio estava na porta do galpão, foi correndo em direção a Marquinhos estendido no chão. Lucio não esperava um golpe pelas costas, que o deixou desacordado. A polícia foi avisada dessa confusão, chegou a tempo de pegar o pai “homofobico”. Marquinhos e Lucio foram levados ao hospital.
Kiko saiu da barraca, veio logo me dando um abraço de bom dia. Lucio já havia acordado, e estava sentado na areia junto a Bruno e Wil. Erick foi o último acordar, depois de passar toda sua linha de cosméticos no corpo, correu para tomar banho de mar.
Ao lado da nossa barraca tinha uma tenda com uma cigana, puxei Kiko e pedi que tirasse uma carta para nós:
- Vamos Kiko? – Disse pegando na mão dele.
- Pô Caio, não acredito nisso... – Viu que não tinha mais saída e foi comigo.
A cigana pediu que a gente sentasse e começou a repartir as cartas. Na primeira carta, disse que sentiu no ar um amor verdadeiro e fiel entre nós, na segunda ficou com cara de espanto e disse:
- Previnam-se, algo pode acontecer para atrapalhar o relacionamento de vocês... Não consigo ver o que é? Está tudo escuro. Pode ser uma pessoa, família, ciúmes de amigos ou então pode ser...
Nesse momento começou uma ventania e corremos para segurar as barracas e colocar as malas dentro dos carros. As cartas da cigana voaram todas e saímos correndo de lá. Ia vir chuva. Erick perdeu sua toalha no vento e foi atrás. Caiu justamente em cima de Henrique que estava na praia:
- Oi Erick, o que faz aqui? – Falou Henrique segurando o boné.
- Eu estou aqui passando o final de semana com meus amigos. E você?
- Meus pais moram aqui, praticamente nasci aqui e vim visitar eles. Adoro vir nessa praia, além de limpa tem vários gatinhos.
- Ué e o David? – Disse Erick enrolando a toalha no corpo.
- Está bem, não deu para vir com a gente. Ah David me explicou que você era o ex dele, me desculpa não sabia disso.
- Não tem problema, tenho raiva dele e não de você. – Disse Erick sorrindo.
- Bom tenho que ir, estão me esperando ali naquele quiosque.
Erick não entendeu nada, tinha um cara musculoso esperando no quiosque. Será que aquele era o tio dele?
Já nem tinha mais clima para ficar ali, chovia muito. Pegamos nossas coisas e seguimos para o apartamento. Tomei um banho e fui direto para cama e fiquei pensando no nosso passeio, principalmente na cigana. Adormeci.
Amanheceu o dia, acordei com Erick dando um tapa no meu rosto. Fui o primeiro a levantar da minha barraca e vi Bruno preparando o café:
- Bom dia Bruno – Disse olhando para aquele mar maravilhoso.
- Bom dia Caio, dormiu bem?
- Até aquela cobra aparecer sim, hahaha – Brinquei.
- Hahahaha, só o Erick mesmo para aprontar toda confusão - Bruno deu risada me dando uma caneca de café.
Conversando com Bruno notei uma pessoa dentro do mar parecida com Jorge. Mas não conseguia enxergar direito, aproximei perto d’água. Do nada desapareceu, achei até que estava ficando louco. Virei para voltar na barraca, pegaram minha mão:
- Oi Caio, quanto tempo heim!? – Colocou a mão no meu peito.
- Jorge? – Disse assustado - Ah tava bom demais para ser verdade, pensei até que você tinha sumido. – Tirei a mão dele de mim.
- Vejo que continua o mesmo bravo e metido...
- Cara, você está doido? – Interrompi – Suma daqui, Kiko está ai, o Lucio e o namorado dele.
- Ah o Bruno garoto prendado? Coitado, foi expulso por minha causa de casa. O pai dele acreditou em tudo que falei.
- Então foi você mesmo que fez aquilo? E acha isso bonito né?
- Foi sim. Mas me arrependo.
- O que? – Falei espantado.
- É, estou com um problema sério. Ando meio depressivo ultimamente. Não tenho mais pique para sair e nada. Vim hoje aqui por causa do meu tio que pesca todos os domingos.
- Aqui se faz, aqui se paga. Fez aquilo com Bruno e agora está tendo suas conseqüências.
- Para com isso, mudando de assunto: você continua delicioso Caio.
- Me respeita, vou voltar para a barraca, antes que alguém perceba que está aqui. – Notei que Jorge estava excitado e fugi.
Rapidamente voltei para a barraca e olhava para tentar vê-lo. Jorge ficou mexendo no seu “órgão” e em seguida entrou no mar. Que estranho qual seria o problema dele?
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